
sabe o que tem de melhor nessa copa?
saber que todos estão em frente à televisão e lá fora as gaivotas sobressaltam em mais um vôo, o mar continua de onda em onda, as flores em pleno crescimento! vou até o jardim... (hoje acordei com menos coceira, Ana C!) aumento o volume do som. não tenho vizinhos; e se os tivesse, eles estariam, agora, bastante concentrados em ver o rumo da seleção. essa, tal seleção, milionária e com manobras de massa avassaladoras!
é claro que não te convidaria para ir ao teatro! aliás, tenho achado o teatro um pé no saco! cadeiras desconfortáveis, vozes impostadas, gestos artificiais e um fechamento desproporcional em si mesmo, coroado pela bênção de não sei qual deuses... perdidos em algum mito nem mesmo embalsamado! corpo transformado em forma imóvel, estatuária - sem fluxos! buscando convencer não sei quem, que o melhor mesmo é ir com a corrente do rio, espalhando flores em todo o vestido... credo! Ofélia?! não! poupe-me da castração de figurações edipianas! aliás, meu querido Freud, agradeço por me saber um sujeito pleno de desejos, mas tenho que reconhecer a tua constante imposição teatral! basta de Hamlet e de Ofélia! e, também, não me agrada saber de nenhum Tristão e nem de alguma Isolda! seqüência tão... mas tão formal quanto esse jogo de futebol! equipe pré-determinada e com posições marcadas! pregressas de algum aconselhamento e determinação na caverna!
é só aparentemente que o amor e a felicidade são contraditórios! podem ser, enfim, na tragédia!
mas, aqui, nesse país parado em frente à televisão.... nesse mundo parado em frente à televisão... posso apostar que a essa hora tem alguém em alguma casa de campo sorrindo e ouvindo uma melodia doce por saber-se livre! por saber que algo em si está sempre fluindo de dentro para fora e de fora para dentro e, que se estiver atento... ah! sentirá um frisson lhe tomar o corpo... as gaivotas voarem mais e mais alto, o barulho do mar tornar-se mais ligeiro...
longe. bem longe... estarão os barulhos negligentes e atordoados de um mundo competitivo, organizado pela lei do mais forte! organizado sob uma perspectiva de mito-estátua de água parada.

